A DOUTRINA DO LOGOS:
Uma análise histórica e exegética.
MESQUITA
NETO, Nelson Ávila (E.T.C.S.).
1. INTRODUÇÃO
Desde
que João escreveu “e o Verbo [Lógos/Palavra] era Deus” (No princípio era o
Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.João 1:1c)
{1}não
têm sido poucos os que se levantaram em protesto ao longo da história da
igreja.
As
“Controvérsias Cristológicas” dos primeiros séculos realçam o peso dessa
afirmação, a qual ganha ainda mais destaque quando aliada a declaração do
evangelista de que este Verbo/Deus “se fez carne e habitou entre nós” (E o
Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do
unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade. João 1:14) na pessoa de Jesus.
Assim,
a chocante doutrina do Deus/homem Jesus Cristo apresentada por João, ora tem
sido atacada de um lado, por grupos que buscam enfraquecer ou negar a plena
humanidade do Verbo (estabelecida na encarnação), como nos casos do docetismo,
do apolinarismo e do eutiquinnismo; ora tem sido agredida em seu outro
flanco, por grupos que buscam minimizar ou suprimir a plena divindade do Verbo
(“e o Verbo era Deus”), como nos casos do ebionismo, do adocionismo e do
arianismo.
Embora
o Credo cunhado no Concílio de Calcedônia (451 d.C.) figure como o postulado
oficial da igreja cristã, cerrando assim as fronteiras da ortodoxia, facções
continuaram a surgir ao longo de todas as épocas, seja para reverberar o grito
de Ário – condenado como herege em Nicéia (325 d.C.) e Constantinopla (381
d.C.) por negar a plena divindade do Lógos Jesus, afirmando que houve um tempo
em que o Verbo não era (não existia)
[2] –
como o fizeram no séc. XVI Servetus e os italianos Lélio Socínio (1525-1562) e
seu sobrinho Fausto Socínio (1539-1604)
[3], e
ainda o fazem em nossos dias a seita Testemunhas de Jeová; seja para reassumir
velhas heresias como o sabelianismo
[4],
criado por Sabélio, presbítero de Ptolemaida, e o modalismo
[5],
desenvolvido por Paulo de Samosata, bispo de Antioquia, que negam a
pessoalidade distinta entre o Verbo, o Pai e o Espírito, apontando para uma
espécie de Deus em máscaras, que ora apresenta-se na máscara do Filho, ora na
máscara do Espírito ou do Pai. “Esta posição tem reaparecido na atualidade no
ensino dos pentecostais unidos” conforme declaram Ferreira e Myatt (2007, p.
488).
[6] No
presente trabalho, nos propomos a focar nas implicações concernentes a
divindade do Logos, a qual consideramos como a mais atacada na atualidade,
principalmente depois do surgimento do liberalismo teológico, onde Cristo
passou a ser apresentado como alguém que não está muito além de um grande
mestre da moral. Iniciaremos, portanto, analisando o desenvolvimento anterior a
João de uma doutrina do Logos, nos pensamentos helenista e judaico, findando
com o desenvolvimento do próprio evangelista e suas peculiaridades.
Em
seguida, nos deteremos na consideração da declaração “e o Verbo era Deus” (Jo
1:1), buscando estabelecer exegeticamente como esta deve ser compreendida.
2. A
DOUTRINA DO LOGOS ATRAVÉS DA HISTÓRIA
2.1. O
Logos no helenismo
Ladd
observa que “os estudiosos, com freqüência, tentaram encontrar a fonte do
conceito de João a respeito do Logos no pensamento helenístico” (2009, p.357).
Falando
a este respeito, Cullmann (2008, p. 330) destaca que “o título Logos ocorre já
na mais antiga filosofia grega, a de Heráclito, e, mais tarde, especialmente no
estoicismo”.
A partir destas referências analisaremos a ocorrência do termo Logos e seus variados conceitos no pensamento helenístico.
A partir destas referências analisaremos a ocorrência do termo Logos e seus variados conceitos no pensamento helenístico.
2.1.1
Heráclito
Para
Heráclito de Éfeso (530-470 a.C.) “[...] todas as coisas estavam em um
determinado curso, e [...] nada permanece da mesma maneira.
Entretanto,
a ordem e o padrão podem ser percebidos em meio ao fluxo e ao refluxo eternos e
incessantes das coisas no Logos – o princípio eterno de ordem no universo.” Ele
mantinha ainda que “o Logos, por trás de qualquer mudança duradoura, é que faz
com que o mundo se torne um cosmos e um todo ordenado” (LADD, 2009, p. 357).
Heráclito
é o criador da famosa ilustração, a qual “[...] contende que um homem não pode
parar no mesmo rio duas vezes, visto que a água e o leito do rio estão
constantemente se movendo e mudando”.
Em
acréscimo a isto, é postulado que “o próprio homem está constantemente mudando
também, de forma que quando ele parar num rio pela segunda vez, ele já será
diferente do homem que era quando parou no rio pela primeira vez” (CHEUNG,
2008, p. 65).
Cheung
argumenta que “o conhecimento depende da imutabilidade”, visto que se um objeto
muda o tempo todo, torna-se impossível traçar qualquer definição a seu
respeito, o que findará reduzindo-o a nada, “e se é nada, então não pode ser
conhecido”.
Sendo
assim, o Lógos, no entendimento de Heráclito, seria “[...] uma lei ou
princípio, que não muda. [...] ‘um agente racional e bom, cuja atividade parece
como a ordem na Natureza’.
Sem isso tudo seria um caos, e a natureza seria ininteligível” (2008, p. 65).
Sem isso tudo seria um caos, e a natureza seria ininteligível” (2008, p. 65).
2.1.2
O estoicismo
Para o
estoicismo, que “por sua vez, teve origem com Zenão de Cício (… 263 a.C.)
[...] Sua doutrina do Logos o concebia como a razão impressa na estrutura do universo e também como a fonte de energia de todas as coisas” (GRANCONATO, 2010, p. 51), ou, como o expressou Cullmann (2008, p. 330),
[...] Sua doutrina do Logos o concebia como a razão impressa na estrutura do universo e também como a fonte de energia de todas as coisas” (GRANCONATO, 2010, p. 51), ou, como o expressou Cullmann (2008, p. 330),
“O
Logos aí é a lei suprema do mundo, que rege o universo e que, ao mesmo tempo,
está presente na razão humana.
Trata-se
pois de uma abstração e não de uma hipóstase”. Uma espécie de “alma impessoal e
panteísta do mundo”.
É,
portanto, muito natural a declaração de Ladd (2009, p. 357) de que “o Logos era
um dos elementos mais importantes na teologia estóica”. Foi esta idéia do Lógos
que “os estóicos usaram [...] para prover a base para uma vida moral e
racional” (LADD, 2009, p. 357).
Ladd
explica que este conceito de Lógos surgiu da confrontação “[...] com o dualismo
comum dos gregos, a respeito de Deus e do mundo”, e destaca que, “a fim de
resolver o problema da dualidade”, passou-se a empregar “o conceito do Logos
como uma idéia unitária” (2009, p. 357).
Neste
sistema de pensamento, portanto, todo o universo passou a ser “[...] concebido
como formando um conjunto vivo singular, que era permeado em todas as suas
partes por um poder primitivo”, o qual era idealizado “[...] como um poder que
nunca precisava de repouso, um fogo capaz de penetrar todas as coisas, ou um
vapor abrasador [...], um tipo difuso e firme de ar flamejante que possuía a
propriedade de pensar”, uma “substância ultra refinada [...] imanente em todo o
mundo e aparecendo nos seres vivos como a alma”.
Assim,
este “poder Divino [Logos ou Deus] de caráter mundial, contendo dentro de si
mesmo as condições e os processos de todas as coisas”, era visto como um poder
produtivo, sendo “[...] denominado de spermatikos logos, o Logos seminal ou
princípio gerador do mundo”, o qual, permeando o universo, revelava-se em
“[...] inumeráveis logoi spermatikoi, ou forças formativas, que energizavam o
fenômeno múltiplo da natureza e da vida”. Desta forma, o Lógosforneceria “[...]
a ordem racional do universo e providenciaria o padrão para a conduta e para a
adequada ordenação da vida para o homem racional” (LADD, 2009, pp. 357, 358).
Por
esta razão, Granconato escreve que a conclusão dos estóicos era a de que “o
homem sábio é aquele que ajusta sua vida à ordem natural que existe no
universo, suprimindo suas paixões, abandonando desregramentos e obedecendo à
lei natural que existe no mundo e que está impressa no ser de cada pessoa”
(2010, p. 51).
2.1.3
O platonismo
Cullmann
(2008, p. 330) afirma que o platonismo também alimentava um conceito referente
ao Lógos.
Granconato diz que “de acordo com as noções do médio-platonismo
(Sécs. I a.C. – II AD), Deus era concebido como absolutamente transcendente e
impassível.
Esse
Deus mantinha ligação com o mundo sensível através do Logos, a razão universal”
(2010, p. 51).
Para Cullmann, “aqui já nos aproximamos mais da ideia de um ser real [o demiurgo]; ‘real’ no sentido do idealismo platônico.
Porém, ainda assim, não estamos diante de uma hipóstase, e a ideia de uma encarnação do Logos é absolutamente inconcebível” (2008, p. 330).
Para Cullmann, “aqui já nos aproximamos mais da ideia de um ser real [o demiurgo]; ‘real’ no sentido do idealismo platônico.
Porém, ainda assim, não estamos diante de uma hipóstase, e a ideia de uma encarnação do Logos é absolutamente inconcebível” (2008, p. 330).
É
digno de nota que, embora não devamos permitir que a analogia da terminologia
nos induza “[...] a identificar a concepção de Logos atestada no judaísmo
tardio, ou mesmo a do Evangelho de João, com a da filosofia grega” (CULLMANN,
2008, p. 330), segundo proposto por Cullmann, “esta concepção filosófica do
Logos ocupa um lugar essencial na história longa e complicada deste termo, pois
influenciou ao menos na forma, as idéias judaicas e pagãs tardias de um Logos
mais ou menos personificado” (2008, p. 330).
Embora
seja provável que “temas mitológicos tenham influenciado mais profundamente”,
Cullmann está convencido de que “a doutrina filosófica do Logos,
incontestavelmente, é uma das fontes destas concepções tardias” (2008, pp. 330,
331).
Para Cullmann um exemplo claro de alguém sob tal influência pode ser visto em Fílon [ou Filo, como é mais comum] de Alexandria (2008, p. 331).
Para Cullmann um exemplo claro de alguém sob tal influência pode ser visto em Fílon [ou Filo, como é mais comum] de Alexandria (2008, p. 331).
2.1.4
Filo de Alexandria
Nascido
em Alexandria (20-25 a.C.), de acordo com Lopes (2007, p. 83), “Filo era um
judeu praticante, da Diáspora”, que teria morrido entre 42 e 50 d.C.
[7]
Ele foi [...] contemporâneo de Herodes, o Grande, dos sábios rabínicos como
Gamaliel, Hilel e Shamai, e ainda de Jesus e de Paulo” (LOPES, 2007, pp. 83,
84).
Bem
versado na Septuaginta e nas tradições do Judaísmo, Lopez declara ainda que
“Filo teve um treinamento completo em filosofia grega” e, “Filosoficamente
falando, ele era uma mistura de platonista e estóico, com a predominância do
pensamento de Platão” (2007, p. 84).
Filo
ficou conhecido por seu método hermenêutico, ao que Ladd (2009, p. 358) chama
de “[...] interpretação alegórica extremada”.
Tal método influenciou profundamente a “[...] academia cristão patrística”, tornando-se “[...] o método de interpretação predominante em uma das mais importantes escolas de catequese nos primórdios da Igreja cristã, a escola de Alexandria, no Egito”, sendo posteriormente adotado como “[...] o método dominante durante a Idade Média, após passar por algumas modificações” (LOPES, 2007, p.83).
Tal método influenciou profundamente a “[...] academia cristão patrística”, tornando-se “[...] o método de interpretação predominante em uma das mais importantes escolas de catequese nos primórdios da Igreja cristã, a escola de Alexandria, no Egito”, sendo posteriormente adotado como “[...] o método dominante durante a Idade Média, após passar por algumas modificações” (LOPES, 2007, p.83).
Relevante
para nossos objetivos é o empreendimento de Filo na “[...] extraordinária
tarefa de casar a religião judaica com a filosofia helenística” (LADD, 2009, p.
358).
Filo
defendia “[...] a perspectiva grega de um Deus completamente transcendente e
separado do mundo; e utilizou o conceito do Logos para prover uma forma de
mediação entre o Deus transcendente e a criação” (LADD, 2009, p. 358).
Segundo
Champlin, “Algumas vezes Filo se referia à impessoalidade do
<>, como se fosse a essência imaterial da mente de Deus, de
onde teria procedido o plano e o padrão da criação.” Em outras ocasiões, “[...]
entretanto, ele falou pessoalmente sobre o <>, como o anjo
do Senhor” (2008, p. 899).
O que
se pode, de fato, falar e saber acerca do Deus de Filo, em virtude de seu
caráter transcendental, é que ele existe. Nada mais nos é dito a seu respeito,
nem qualquer detalhe nos é oferecido sobre ele, com exceção da afirmação de sua
existência. Como Ladd bem expressa:
Deus é
absoluto e encontra-se fora do universo material. Ele abrange todas as coisas
e, no entanto, Ele próprio não pode ser abrangido.
Está fora do tempo e do espaço e não pode ser conhecido em seu próprio ser.
O único nome pelo qual Deus pode ser designado é ‘ser puro’, to on, um ser sem atributos em si mesmo (2009, p. 358).
Está fora do tempo e do espaço e não pode ser conhecido em seu próprio ser.
O único nome pelo qual Deus pode ser designado é ‘ser puro’, to on, um ser sem atributos em si mesmo (2009, p. 358).
Sendo
assim, visto que Deus não se mistura ao mundo material, ele “[...] precisa
contar com agentes, tanto na criação como nos seus contatos com o mundo”
(CHAMPLIN, 2008, p. 900).
O
Lógos, ou Razão, conforme concebido por Filo é, portanto, “[...] o mesmo que o
<> de Platão”, ou seja, “O princípio de mediação entre
Deus e a matéria [...], no qual estariam comprimidas todas as idéias das coisas
finitas, e que teria criado o mundo material, fazendo estas idéias penetrarem
na matéria”, ou ainda, “[...] é a razão divina e universal, a razão imanente,
que contém dentro de si mesmo o ideal universal, mas que ao mesmo tempo, é a
palavra expressa, que procede da parte de Deus e que se manifesta neste mundo
em tudo quanto aqui existe” (CHAMPLIN, 2008, p. 900). Por esta razão, Ferreira
e Myatt (2007, p. 509) resumem o pensamento de Filo acerca do Lógos como “[...]
a emanação divina que intermediou a criação do universo”.
Assim
sendo, vendo o Lógos como “[...] a manifestação que Deus faz de si mesmo neste
mundo”, Filo entendia que “ao revelar a si mesmo, Deus poderia ser chamado de
Logos”, e “[...] o Logos, na qualidade de agente revelador de Deus, poderia ser
chamado de Deus” (CHAMPLIN, 2008, p. 900).
2.2 O
Logos no judaísmo
No
pensamento judaico encontramos duas concepções acerca do Lógos: a concepção
judaico-helenística, onde temos seu maior representante em Filo, como já
apresentado acima; e aquilo que Cullmann chama de “[...] a concepção
autenticamente bíblica”, a qual remontaria “[...] a Gn 1, segundo a qual o
Verbo de Deus, o debar Iahweh, é entendido em seu sentido primitivo e torna-se,
às vezes, em virtude de um desenvolvimento imanente do pensamento, uma hipóstase
divina” (2008, p. 333).
2.2.1
A concepção judaico-helenística
Quanto
à primeira concepção, embora já tenhamos discorrido sobre a influência do
platonismo e do estoicismo aliados à hermenêutica alegórica no trato com a
Bíblia judaica (o Antigo Testamento) em Filo, Cullmann (2008, p. 331), seguindo
Bultmann, aponta para uma possível influência do paganismo, e/ou da doutrina
gnóstica, na formulação destes conceitos no pensamento judaico-helenístico. Ele
escreve:
Aqui o
Logos é um ser mitológico, intermediário entre Deus e o homem. Não é tido só
por criador do mundo é, em primeiro lugar, o portador da revelação e a este
título, Salvador; pode também, transitoriamente, revestir-se da forma humana,
porém, sempre dentro de um quadro mítico e doceta; jamais no quadro histórico
de uma verdadeira encarnação.
Cullmann
(2008, p. 331) faz questão de frisar que o próprio Bultmann deixa claro que
este ser mitológico “[...] está somente ‘disfarçado’ de homem”, reforçando a
rejeição de qualquer idéia de encarnação real.
Exemplos
da prefiguração deste Lógospersonificado nas religiões antigas podem ser vistos
em Hermes e no deus egípcio Thot, os quais “[...] ostentam o título de Logos”
(CULLMANN, 2008, p. 332). Embora endossando o pensamento de Bultmann a este
respeito, Cullmann (2008, p. 332) o critica por considerar “[...] esta doutrina
gnóstica acerca do Logoscomo a única fonte da doutrina judaico-alexandrina do
Logos e da sabedoria, tal como a encontramos em Fílon, nos livros da sabedoria
e nos textos rabínicos e, também, como a única fonte de noção joanina do
Logos”.
2.2.2
A concepção veterotestamentário
Na
visão judaica mais preocupada em deter-se sobre a revelação bíblica, em
detrimento das considerações filosóficas e pagãs correntes, três são os
conceitos sobre os quais uma doutrina do Lógos foi erigida: o debar Iahweh, o
memra déjahvé e a sabedoria.
a) O
davar de Iahweh
O
davar de Iahweh, ou a Palavra de Deus, “[...] foi um importante conceito para os
judeus” (LADD, 2009, p. 358). Conforme Cullmann, “Há no Antigo Testamento, toda
uma série de passagens nas quais a "Palavra de Deus’, se não está personificada
é, ao menos, considerada como uma entidade independente e que passa a ser
objeto de reflexão teológica em razão do enorme poder de sua ação” (2008, p.
335).
Champlin
nos diz que “a Palavra, que corporifica a vontade divina, é personalizada na
poesia hebraica”. Deste modo, sendo-lhe conferidos atributos divinos, a Palavra
nos é apresentada como “[...] um curador (ver Sal. 107:27); um mensageiro (ver
Sal. 147:15), e o agente dos decretos divinos (ver Is. 55:11). (Ver também Sal.
32:4; Is. 40:8 e Sal. 119:105)” (2008, p. 899).
Ladd
(2009, p. 358), ainda apontando para esta realidade, nos relembra que “a
criação veio a existir e foi preservada pela palavra de Deus (Gn. 1:3, ‘e disse
Deus’, veja Sl. 33:6, 9; 47: 15-18); e a palavra de Deus é a portadora da
salvação e da nova vida (Sl. 107:20; Is. 4:8; Ez. 37:4-5).” Ele arremata ao
declarar que “no Antigo Testamento, a palavra não é meramente uma forma de
expressão; é uma existência semi-hipostática, de forma que pode mover-se e
cumprir o propósito divino (Is. 55:10-11)”.
Assim, “A palavra de Deus proferida
na criação, expressa por intermédio dos lábios dos profetas (cf. Jr. 1:14, 11;
2:1) e na Lei (Sl. 119:38, 41, 105), tem um certo número de funções que podem
muito bem ser comparadas com aquelas atribuídas ao Logos em João.
Interessantíssimo,
enquanto delineando um exemplo muito claro da Palavra como um ser hipostasiado,
é a descrição encontrada na “[...] Sabedoria de Salomão (submetida já à
influência alexandrina), onde lemos no capítulo 18:15: ‘Tua Palavra onipotente
sai do trono real como um guerreiro implacável...’” (CULLMANN, 2008, p. 335). A
nível de paralelo, acerca deste trecho de Sb. 18:15, Jeremias (2006, p. 397) declara:
“Isto nos lembra imediatamente Ap 19.11ss, onde Cristo é descrito como o herói
que chega num cavalo branco com uma espada na boca, e onde é chamado ‘o Lógos
de Deus’ (19:13)”.
b) O
memra déjahvé
Memra
déjahvé, ou simplesmente Menra, “[...] é a designação aramaica da Palavra de
Iahweh” (CULLMANN, 2008, p. 335). Este é um conceito posterior no pensamento
judaico e parece expressar uma reflexão mais acurada acerca do conceito da
Palavra de Deus, elevada ao nível em que pode ser usada até mesmo para substituir
o próprio nome de Deus.
Champlin
nos informa que devido à personalização do conceito da Palavra de Deus nos
“[...] comentários e [...] exposições do A.T.”, assim como na “[...] teologia
judaica”, “[...] um agente de Deus, como se fora a união de seus atributos,
segundo eles são revelados aos homens”, foi criado, e a este (tomado como uma
espécie de princípio todo inclusivo) fora dado o nome “[...] Menra (Palavra ou
<>) de Jeová” (2008, p. 899).
Esta
idéia, conforme nos explica Champlin (2008, p. 899), fora, então, introduzida
pelos eruditos judaicos nos Targuns, “[...] ou seja, nas paráfrases inseridas
no V.T., escritas no idioma aramaico”. Um exemplo de tais paráfrases nos é
fornecido por ele (2008, p. 899) acerca de Gên. 39:21: “<>”.
No trecho em questão, a palavra substituída por
Menra é, na verdade, “o Senhor”. Nesta concepção, portanto, “A
<> também teria sido o anjo que destruiu os primogênitos do
Egito, e também teria sido a Menra quem conduziu Israel, na nuvem de fogo”
(CHAMPLIN, 2008, p. 899). Isto nos revela uma clara personificação da Palavra
(Lógos) de Jeová sendo intercambiável com o próprio Jeová ou Suas teofanias.
c) A
sabedoria
De
acordo com Ladd (2009, p. 359), “O conceito de sabedoria personificada também
fornece um contexto judaico para o conceito de Logos”. Para Cullmann (2008, pp.
336, 337), “[...] foram as especulações do judaísmo tardio acerca da Sabedoria
[...] as que mais influenciaram a noção de Logos no cristianismo primitivo”.
Nas
palavras de Goppelt (1983, p. 551):
Já na
porção mais recente dos Provérbios (século III AC), confere-se à Sabedoria uma
função cosmológica. Ela é primícia das obras de Deus e participa da obra da
criação (Pv 8,22-36). Ao mesmo tempo, tem função soteriológica: quem ouve suas
admoestações e observa seus caminhos “encontra a vida”, quem, todavia, a odeia,
“encontra a morte” (Pv 8,36; cf. sir Bar 3,9-4,4).
Digna
de atenção é a noção de Sabedoria desenvolvida no livro de Provérbios. “Em
Provérbios 8:22-31, a sabedoria é semi-hipostática. A Sabedoria foi a primeira
de todas as coisas criadas e, depois, por ocasião da criação do mundo, diz de
si mesma: ‘Euestava com ele e era seu aluno’” (LADD, 2009, p. 359).
Na verdade,
este capítulo 8 de Provérbios constitui-se num discurso feito pela própria
Sabedoria em primeira pessoa. Cullmann (2008, p. 337) diz que esta mesma idéia
pode ser encontrada “[...] em Eclo. 1.1 ss.; 24.1 ss., e ainda em diversos
outros lugares”.
Em Sir. 24:8 lê-se que “[...] a Sabedoria emanou de Deus para
habitar em Israel e torná-lo o povo de Deus” (LADD, 2009, p.359). “Na Sabedoria
de Salomão se diz que a Sabedoria é um ‘reflexo da luz eterna de Deus’ (7.26)”
(CULLMANN, 2008, p. 337). Tudo isto demonstra uma íntima relação entre o
conceito de Lógos e a Sophia, que para Cullmann “[...] são palavras quase
intercambiáveis” (2008, p. 337).
Conquanto
tenhamos distinguido nestas seções, 2.2.1 e 2.2.2, entre duas linhas diretivas
no judaísmo; a que adota o conceito de “Palavra” simplesmente, desenvolvida a
partir de influências exteriores, e a linha especificamente bíblica acerca da
Palavra de Deus, da davar Iahweh, deve-se destacar que “ambas têm em comum o
expressarem a obra pela qual Deus se revela. Porém, a ideia desta obra, esta
Palavra dirigida por Deus ao mundo, poder finalmente encarnar-se no quadro
histórico de uma vida humana e terrena, é coisa tão estranha a uma como a
outra” (CULLMANN, 2008, p. 338).
3 O
LOGOS NO PENSAMENTO JOANINO
Conforme
Schreiner e Dautzengerg (1977, p. 48), “A aplicação do título de Logos a Cristo
é específica da apresentação Joanina.” Ainda que no Evangelho o título seja
empregado somente no prólogo (Jo 1:1, 14), João faz uso deste também em uma de
suas cartas (1 Jo 1:1 – “Verbo da vida”) e em Apocalipse 19:13 (“Verbo de
Deus”). Não significa dizer com isto que a idéia do Lógos empregada por João
não encontre paralelos em outros escritos do próprio Novo Testamento. Exemplo
claro disso pode ser visto em Hebreus 1:1-3. De acordo com Cullmann, “É verdade
que o termo mesmo λόγος não aparece aí; porém, o falar de Deus em seu Filho
está associado com a criação do mundo e ligado a uma definição da relação
eterna entre o Filho e Deus o Pai” (2008, p. 342).
O
Verbo apresentado como Deus em João (1:1c), é descrito pelo autor aos Hebreus
como “o esplendor da glória e a expressão exata do seu [de Deus] Ser.” O Verbo
por intermédio do qual foram feitas todas as coisas e, sem o qual, “nada do que
foi feito se fez” (Jo 1:3), encontra mais um claro paralelo no Filho retratado
em Hebreus, sobre o qual lemos que “fez o universo” (Hb 1:2) e sustenta “todas
as coisas pela palavra do seu poder” (Hb 1:3).
Procurou-se
por muito tempo compreender o Logos joanino apenas com base no uso helenístico
do termo, ou ainda, mais recentemente, como uma mera extensão do pensamento
judaico, seja no conceito bíblico da Palavra de Deus ou da Sabedoria, seja no
conceito filosófico apresentado por Filo. Embora paralelos existam, pois como
diz Champlin (p. 900), “[...] essa doutrina não foi criada no vácuo”, Ladd destaca
que “[...] a despeito de certas semelhanças, nem a idéia do Logos nem a de
sabedoria se aproxima da verdade que João enuncia por meio de sua doutrina do
Logos: a preexistência pessoal e a encarnação do Logos” (2009, p. 359). Como já
vimos anteriormente, mesmo que o conceito de Lógos fosse por vezes apresentado
como hipostasiado, ou mesmo personificado, jamais era concebido como
personalizado, nem se aceitava qualquer idéia relativa à encarnação real.
Para
Ladd (2009, p. 360), portanto, “A questão importante é o uso teológico que João
faz do conceito do Logos, e esse uso, por ser peculiar, não encontra paralelos,
quer na filosofia helenística quer no pensamento judaico.” Acerca deste uso
teológico, destacam-se dois conceitos:
(1) A preexistência de Jesus (o Lógos);
e (2) Sua divindade.
Em
primeiro lugar, digno de nota é a alusão deliberada feita por João a Gênesis
1:1, onde lemos o relato da criação; criação esta que, tanto ali como em João
(1:3), vem à existência por meio da palavra de Deus (“Disse Deus” – Gn 1:3), o
próprio Lógos. Se compararmos Έν ἀρχᾖ (“No princípio”) em Jo 1:1 com a tradução
feita pela Septuaginta de Gn 1:1, perceberemos que não há qualquer diferença.
As palavras são exatamente as mesmas. A única distinção aqui se deve ao fato de
que “‘No princípio’, em Jo 1:1, refere-se a um período anterior a Gênesis 1:1
[...] pois o Logos foi o agente da criação.” Assim, “O Verbo já existia na
eternidade, que não tem início e nem fim” (LADD, 2009, p. 360).
A este
respeito, Hendriksen (2004, p. 99) declara: “A maneira como este Evangelho
começa é magnificente. Ele começa retratando a vida de Cristo na eternidade,
antes que o mundo existisse.”
Nas
palavras de Ladd, “A preexistência de Jesus é refletida em várias passagens de
seu próprio ensino.”
Exemplo disto pode ser visto na declaração: “‘Antes que
Abraão existisse, eu sou’ (8:58). Essa surpreendente afirmação é uma alusão ao
uso do Antigo Testamento. Deus Revelou-se a Moisés como ‘EU SOU O QUE SOU’ (Êx.
3:14)” (2009, p. 360).
Ou ainda, “Vede, agora, que eu, eu o sou, e mais nenhum
deus comigo” (Dt. 32:39). Jesus também interrogou: “Que será, pois, se virdes o
Filho do Homem subir para o lugar onde primeiro estava?” (Jo 6:62). Embora a
expressão “o lugar onde primeiro estava” não aponte diretamente para Sua
preexistência na própria eternidade, se compararmos esta passagem com Sua
oração final, poderemos encontrar, então, uma clara afirmação desta
preexistência: “e, agora, glorifica-me, ó Pai, contigo mesmo, com a glória que
eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo” (Jo 17:5).
Está, pois, evidente
que “o lugar onde primeiro estava”, é, portanto, junto ao Pai, “antes que
houvesse mundo”. “Assim, quando céu e terra foram criados, havia a Palavra [ou
Verbo] de Deus, já existindo na mais próxima associação com Deus e
compartilhando da essência de Deus” (BRUCE, 1983, p. 31) [8]. Desta forma,
Bruce (1983, p. 31) nos alerta: “Não importa para quão distante possamos tentar
empurrar nossa imaginação, não podemos nunca buscar um ponto no qual poderíamos
dizer da Divina Palavra [ou Verbo], como Ário o fez, ‘Houve um tempo quando ele
não existia’”. [9]
Como
dito previamente, “Em segundo lugar, João utiliza a idéia do Logos para afirmar
a divindade de Jesus Cristo. O Logos estava com (pros) Deus, e o Verbo era Deus
(theos ēn ho logos)” (LADD, 2009, p. 360). Conforme supramencionado, Deus
apresenta a Si mesmo como o “EU SOU”. Cristo faz uso da mesma expressão para
representar sua divindade, e, no Evangelho de João este uso do ἐγώ εἰμί é
profícuo (ex: 6:35, 41, 48, 51; 8:12; 10:11, 14; 11: 25; 14: 6; 15:1, 5) e está
sempre conectado ao uso do Antigo Testamento, mesmo quando tratado de maneira
figurada (ex. Jo 4:14; 7:38, comparar com Jr 2:13 – Jesus é “água viva”; Deus é
manancial de água viva”. A promessa aos que serão salvos, segundo escreve João em
Ap 7:17; 21:6, 22, é a de que serão conduzidos à “água da vida”).
A
apropriação que Jesus fazia de Deus como Seu Pai também apontava para Sua
divindade, desde que este o fazia de forma toda particular. Isto fica muito
evidente em Jo 5:17, 18, onde os judeus procuravam matá-lo, “não somente por
violar o sábado”, mas porque dizia também “que Deus era seu próprio Pai”. No
pensamento joanino, Jesus não é a criatura agarrando-se ao Criador como a um
Pai, mas antes “o unigênito [não criado, mas eternamente gerado] do Pai” (Jo
1:14). Ainda em João 5:18, devemos ressaltar que é o evangelista, inspirado
pelo Espírito Santo, e não os judeus, quem declara abertamente que outro motivo
pelo qual buscavam assassinar Jesus se devia ao fato de Ele fazer-se “igual a
Deus” (Jo 5:18). Mais adiante, os próprios judeus indicam este fato quando,
após a declaração de Jesus (“Eu e o Pai somos um” – Jo 10:30), pegam em pedras
para o apedrejar acusando-o de blasfêmia, pois Ele [Jesus] sendo homem,
fazia-se Deus a Si mesmo.
Destarte,
no pensamento joanino, Jesus é Deus (Jo 1:1c; 5:18). Como a segunda pessoa da
Trindade Ele não é o Pai, mas está em íntima e eterna relação com Este, sendo
um com o próprio Deus Pai (Jo 10:30), de tal forma que Ele está no Pai e o Pai
nEle (Jo 10:38; 14:10), pelo que quem O vê, vê o Pai (Jo 14:9). Assim, podemos
resumir este ponto com a afirmação que encontramos nos Catecismos, Maior[10] e
Breve[11], de Westminster, os quais declaram que Jesus é “[...] o eterno Filho
de Deus, da mesma substância e igual ao Pai”, o qual “[...] no cumprimento do
tempo fez-se homem, e assim foi e continua a ser Deus e homem em duas naturezas
perfeitas e distintas e uma só pessoa para sempre”.[12]
Escrevendo
sobre João 1:1, Cullmann (2008, 348) afirma:
É,
deveras, a opinião do evangelista a que se expressa aqui, quando chama ao Logos
“Deus”. Isto é o que a parte final de seu Evangelho mostra quando Tomé,
convencido, exclama diante do Ressuscitado: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo
20.28). Com este último e decisivo “testemunho”, fecha-se o círculo: o
evangelista retorna ao prólogo.
Acerca
deste prólogo, embora não objetivemos nos deter neste quesito, a saber, de se o
prólogo joanino consiste num hino primitivo ou não, é interessante destacar o
pensamento de Jeremias (2006, p. 382). Para ele, “[...] Jo 1:1-18 é uma
passagem poética”. A partir daqui ele procura fazer uma análise literária da
passagem em questão apontando para um paralelismo semelhante às construções
encontradas nos Salmos.
Jeremias
argumenta que “no Oriente Próximo, o paralelismo tem a mesma função que a rima
entre nós: com a métrica, diferencia a poesia da prosa”. Sua argumentação
desemboca na afirmação de que o prólogo joanino trata-se, na verdade, de “[...]
um cântico vigorosamente construído, um poema religioso dos inícios do
cristianismo, um salmo, um hino ao Logos Jesus Cristo” (2006, p. 382). Ele
aponta também para Fl 2:6-11 como “[...] a citação de um hino pré-paulino a
Cristo, no qual Paulo inseriu comentários” (2006, p. 384). Com isto ele busca
corroborar a sua tese de que o que vemos em João é a mesma coisa, ou seja, um
hino composto em forma de paralelismo em série ascendente, entremeado por
comentários do autor do, assim chamado, Quarto Evangelho.
Se
Jeremias está correto ou não ao tomar esta passagem como um “[...] gênero
literário, em que a história da salvação é cantada em forma de salmodia”, a
“[...] Heilsgeschichte in Hymnenform (história da salvação em forma de hino)”
(2006, p. 386), não é matéria na qual devamos nos deter aqui, porém, tal
discussão unida ao registro histórico encontrado na carta de Plínio à Trajano
(Carta X 96), onde lemos que os cristãos perseguidos, em sua liturgia cantavam
“[...] hinos a Cristo, [adorando-o] como a um Deus” (inBETTENSON, 2007, pp. 29,
30), nos fornece uma boa base para afirmarmos que ao Lógos [Jesus] era
atribuída a mesma devoção, glória e louvor devida à Theós [Deus o Pai],
conduzindo-nos, assim, à evidente constatação de que a divindade de Jesus era
amplamente sustentada pela igreja primitiva.
Por
fim, Hörster expressa bem a idéia apresentada no prólogo joanino afirmando:
“Esse Logos, que era um com Deus, tornou-se um homem de carne e osso e viveu
com os homens. Alguns que confiaram nele chegaram a ver seu poder e majestade,
reconheceram nele o Filho de Deus e admiraram-se com a bondade e fidelidade de
Deus que encontraram nele” (2009, p. 55). “Isto mostra claramente que o
infinito pode entrar em relações finitas, e de fato entra, e que, de algum
modo, o sobrenatural pode entrar na vida histórica do mundo” (BERKHOF, 2002, p.
307). Sem dúvida, esta concepção sustentada por João é absolutamente singular e
distinta de qualquer outra idéia preconcebida acerca do Lógos.
4
ANÁLISE EXEGÉTICA DE JOÃO 1:1c: καὶθεòς ἦν ὁ λόγος
Analisaremos
agora o primeiro versículo do prólogo joanino, buscando determinar a intenção
do autor ao escrever “καὶ θεòς ἦν ὁ λόγος” [13] (kaì theòs ên ho lógos).
Iniciaremos apresentando como 18 versões das Escrituras traduziriam João 1:1:
· “No
princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (ARA,
ARC[14], Almeida séc. XXI, BJ[15], TB[16]).
· “No
princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus, e a Palavra era Deus”
(VR[17]).
· “No
princípio era a Palavra, e a Palavra estava com o Deus, e a Palavra era deus”
(TNM [18], versão de 1967).
· “No
princípio era aquele que é a Palavra. Ele estava com Deus, e era Deus”
(NVI[19], NBV[20]).
· “No
princípio havia a Palavra. A Palavra estava com Deus, e em tudo era igual a
Deus” (Gute Nachricht[21]).
·
“Antes de ser criado o mundo, aquele que é a Palavra já existia. Ele estava com
Deus e era Deus” (NTLH[22]).
·
“Antes de tudo, havia a Palavra, a Palavra presente em Deus, Deus presente na
Palavra. A Palavra era Deus, desde o princípio à disposição de Deus” (A
Mensagem[23]).
· “En
un principio era el Verbo, y el Verbo estaba ante Dios, y el Verbo era Dios”
(BTRV[24]).
· “In
the beginning was the Word, and the Word was with God, and the Word was God”
(HCSB[25], KJV[26], NASB[27]).
· “In
the beginning the Word already existed. He was with God, and he was God”
(NLT[28]).
· “In
the beginning the Word was, and the Word was with God, and the Word was a god”
(NWT[29]).
Todos
concordarão que o versículo pode ser dividido em três cláusulas:
1) No
princípio era o Verbo;
2) O Verbo estava com Deus; 3) O Verbo era Deus. Quanto
às duas primeiras cláusulas, parece não haver discordância entre as traduções,
embora algumas enfatizem mais alguns aspectos do que outras, como, por exemplo,
a pré-existência do Verbo (cláusula 1), nitidamente destacada pelas versões NTLH
(“Antes de ser criado o mundo, aquele que é a Palavra já existia.”) e NLT (“No
princípio a Palavra já existia”), e a posição do Verbo em relação a Deus no
princípio (cláusula 2), como expressa a BTRV pelo uso da palavra “diante”, que,
segundo é esclarecido em suas notas de rodapé, tem por significado estar “face
a face, frente a frente, ou na presença de”, o que definiria “[...] a posição reflexiva do Verbo” (itálicos originais) [30]. A divergência se levanta,
portanto, na terceira cláusula, onde a NWT, contrariando todas as demais
traduções propostas acima, traduz “καὶ θεòς ἦν ὁ λόγος” por “e a Palavra eraum
deus”.
4.1
Seria Θεός em João 1:1 indefinido?
Mather
e Nichols (2000, p.454) nos informam que “as Testemunhas de Jeová [seita
responsável pela publicação da NWT] argumentam que as regras gramaticais gregas
permitem a inserção de um artigo indefinido “um”, a fim de, desta maneira,
anular a utilização deste texto para defender a doutrina da divindade de
Cristo” [31]. Wallace (1996, pp. 266, 267), porém, declara que “O argumento
gramatical de que o predicado nominativo aqui é indefinido é fraco” [32], e
acrescenta: “Freqüentemente, aqueles que argumentam por uma visão tal (em
particular, os tradutores da NWT) o fazem assim tão somente sobre a base de que
o termo é anártro [isto é, não possui artigo]” [33].
A
respeito do uso do artigo em grego, Mounce (2009, p. 47) destaca: “O artigo
definido é o único artigo em grego. Não existe artigo indefinido (‘um’). Por
isso, você pode se referir ao artigo definido grego simplesmente como o
‘artigo’”. Mais adiante ele complementa:
“Se não houver artigo, você poderá
inserir ‘um/uma’ antes do substantivo se fizer melhor sentido em português”
(2009, p. 50). Tais afirmações parecem aprovar o procedimento de tradução
adotado pela NWT, visto que o texto em grego encontra-se como segue: “kaì
[ausência do artigo definido “ho”] theòs ên ho lógos”. Todavia, é importante
ressaltar que “os gregos não empregam o artigo da mesma maneira que nós o
fazemos. Empregam-no onde nós nunca empregaríamos, e o omitem quando o
português o exige” (MOUNCE, 2009, p. 50 – itálicos acrescentados).
As
Testemunhas de Jeová não são ignorantes quanto a isto. Fato é que na NWT a
ausência do artigo junto à theós nos versículos 6, 12, 13 e 18 não os leva a
traduzir estas passagens como “um deus”, o que seria coerente com a
justificativa utilizada para a tradução do versículo 1. No entanto, o próprio
argumento defendido por eles, de que a ausência de artigo tornaria o
substantivo indefinido, deveria logicamente conduzi-los a traduzir estes
versículos por “um deus”, ao invés de “Deus”, como o fazem seguindo todas as
outras versões supracitadas[34].
Enfatizando
este ponto Countess (apud Wallace, 1996, p. 267) atesta:
No
Novo Testamento há 282 ocorrências do θεός anártro. Em dezesseis lugares a NWT
traduz como um deus, deus, deuses, ou piedoso[35]. Dezesseis de 282 significa
que os tradutores foram fiéis ao seu próprio princípio de tradução apenas seis
por cento das vezes. [36]
Wallace
(1996, p. 267) nota que “Se expandirmos a discussão para outros termos anártros
no Prólogo Joanino, notaremos outras inconsistências na NWT” [37]. Em suas
próprias palavras:
É
interessante que a New World Translation traduz θεός como “um deus” sobre as
bases simplistas de que lhe falta o artigo. Isto é certamente uma base
insuficiente. Seguindo o princípio “anártro = indefinido” significaria que ἀρχᾗ
deveria ser “um princípio” (1:1, 2),ζωή deveria ser “uma vida” (1:4), παρὰθεοῦ
deveria ser “de um deus” (1:6),Ίωάννης deveria ser “um João” (1:6),θεόν deveria
ser “um deus” (1:18), etc. Ainda que nenhum desses outros substantivos anártros
seja traduzido com um artigo indefinido.[38]
Wallace
arremata dizendo: “alguém pode somente suspeitar de uma forte tendência
teológica em uma tradução como esta” (1996, p. 267) [39].
Por
que, então, a NWT sustenta tal inconsistência para com seu próprio princípio de
tradução? Mather e Nichols (2000, p.455), citando parte de uma entrevista do
erudito em grego J. R. Mantey [40], apresentam a seguinte conclusão quanto à
metodologia empregada na tradução das Testemunhas de Jeová [NWT]:
Quando
encontram certas passagens das Escrituras que parecem estar contra o ponto de
vista deles, para o meu grande desapontamento, em alguns casos, deliberada e
fraudulentamente traduzem errado – engano deliberado – o que para mim é
imperdoável. Essa é uma atitude desonesta e, num certo sentido, diabólica.
“De
acordo com o estudo de Dixon, se θεός fosse indefinido em João 1:1, seria o
único predicado nominativo anártro pré-verbal no Evangelho de João a ser assim”
(WALLACE, 1996, p. 267). Embora Wallace argumente que isto seja de algum modo
um exagero, ele concorda que “o ponto geral é válido: A noção indefinida é a
mais pobremente atestada pelos predicados nominativos anártros pré-verbais.
Assim, gramaticalmente um significado tal é improvável” (1996, p. 267). Ele
também sustenta que o contexto não apóia uma tradução assim, observando que “a
própria teologia do evangelista milita contra essa visão”, visto que “há uma
Cristologia exaltada no Quarto Evangelho, ao ponto que Jesus Cristo é
identificado como Deus (cf. 5:23; 8:58; 10:30; 20:28, etc.)” (WALLACE, 1996, p.
267) [41]. Além de tudo, entender θεός aqui como indefinido traria implicações
teológicas sérias que apontariam para alguma forma de politeísmo, “[...] talvez
sugerindo que a Palavra fosse meramente um deus secundário em um panteão de
deidades” (WALLACE, 1996, p. 266) [42]. Por isso, Van Dam (2000, p. 30)
assevera veementemente: “aceitar sua defeituosa tradução é aceitar o
politeísmo. Porque de acordo com a TNM [a mesma NWT], em João 1:1, o que João
afirma é que há pelo menos dois deuses, enquanto que o ensino consistente da
Escritura é que só há um Deus”.[43]
Passemos
em revista agora os motivos pelos quais a esmagadora maioria das traduções
bíblicas traduz a ultima cláusula de João 1.1 por “e o Verbo [a Palavra] era
Deus”.
4.2
Seria Θεός em João 1:1 definido?
Primeiramente
precisamos destacar mais uma vez o fato de que a ausência de artigo não prova
que um predicativo do sujeito numa posição anterior ao verbo seja indefinido.
Wallace (1996, p. 257), citando Colwell acerca de sua famosa regra, escreve:
Substantivos
predicados definidos que precedem o verbo usualmente perdem o artigo... um
predicado nominativo que precede o verbo não pode ser traduzido como um
substantivo indefinido ou ‘qualitativo’ tão somente por causa da ausência do
artigo; se o contexto sugere que o predicado é definido, ele deve ser traduzido
como um substantivo definido. [44]
Em
outras palavras, se for demonstrado a partir do contexto que theós aqui é um
predicativo do sujeito definido, a ausência de um artigo pode perfeitamente ser
explicada pelo fato de theós preceder o verbo. Um bom exemplo de uma construção
semelhante a esta pode ser visto no próprio capítulo 1 de João.
No versículo 49
lemos a resposta de Natanael: “Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de
Israel!” [45]. No original há um artigo antes de “Filho de Deus” (ὁ υἱòςτοῦ
θεοῦ), o qual se encontra após o verbo, enquanto que na oração seguinte não há
artigo antes de “Rei” (βασιλεύς), o qual precede o verbo. Carson (2007, p.117)
confirma o que já tem sido dito até aqui nas seguintes palavras: “Demonstrou-se
que, nessa construção, é comum para um substantivo predicado finito ser
colocado antes do verbo, ser anártro”. De acordo com isto, “[...] Colwell
assumiu que a definição do predicado nominativo poderia ser alcançada tanto pelo
artigo como pela mudança na ordem da palavra” (WALLACE, 1996, p. 257) [46].
Até
mesmo a NWT traduz esta passagem como “Rei de Israel” [47] e não “um rei de
Israel”, o que seria mais adequado ao seu princípio de tradução perante
substantivos anártros.
Baseado
no que tem sido apresentado até então, alguns eruditos têm argumentado em favor
de que theós seria um substantivo predicado anártro definido. Reymond aponta
para a tradução de Monffat como um exemplo de tradução onde theós é traduzido
qualitativamente (isto é, adjetivamente) por “divino”, e protesta: “Nenhum
Léxico Grego padrão oferece ‘divino’ como um dos significados de θεός, theos,
nem o substantivo se torna adjetivo quando ‘perde’ seu artigo” (2009, p. 300)
[48].
Tanto
Reymond (2009, p.300)[49] quanto Carson (2007, p.117)[50] argumentam ainda que
se o intuito de João era expressar um sentido puramente adjetival
(qualitativo), como se a Palavra (ou Verbo) não fosse Deus, mas apenas divina,
ele teria a sua disposição o adjetivo theîos, o qual seria mais indicado. A
este respeito, Carson demonstra sua insatisfação para com uma tradução que
aponte theóscomo qualitativo afirmando: “Isto não é o bastante” (2007, p. 117).
Um
problema que se levanta contra a defesa de um theós definido é que “a maioria
dos predicados nominativos definidos pré-verbais anártros são monádicos[51], em
construções genitivas, ou são nomes próprios, nenhum dos quais é verdade aqui,
diminuindo a probabilidade de um θεός definido em João 1:1c [cláusula 3]”
(WALLACE, 1996, p. 268) [52].
Outro
problema é que, em virtude da aparição prévia de θεός antecedido por artigo
(τòν θεòν) na segunda cláusula, poderíamos afirmar com certeza ser θεός
articular na terceira cláusula desde que se referisse à mesma pessoa. Todavia,
na cláusula 2 θεός é uma referência direta a Deus o Pai e na cláusula 3 uma
referência ao Verbo. Portanto, Bruce escreve: “Tivesse theos, assim como logos,
sido precedido pelo artigo, o significado teria sido que a Palavra era
completamente idêntica a Deus, o qual é impossível, já que a Palavra estava
também ‘com Deus’” (1983, p. 31) [53]. “Assim, dizer que θεός em 1:1c [3ª
cláusula] é a mesma pessoa é dizer que ‘A Palavra [o Verbo] era o Pai’. Isto,
como os antigos gramáticos e exegetas apontaram, é Sabelianismo ou modalismo embrionário”
(WALLACE, 1996, p. 268) [54].
Conforme
Wallace (1996, p. 268), “O Quarto Evangelho é o último lugar provável para se
encontrar modalismo no NT” [55]. Porém, é importante notar que ele faz questão
de deixar claro que “isto não quer dizer que em um determinado contexto Jesus
não poderia ser identificado com ὁ θεóς. Em João 20:28, por exemplo, onde o
crescendo do Evangelho se estabelece na confissão de Tomé, Jesus é chamado
ὁθεóς. Mas, não há nada naquele contexto que o identificaria com o Pai” (WALLACE,
1996, p. 268) [56].
Frente
às dificuldades apresentadas acima, há que se analisar ainda uma última
probabilidade, a saber, a de θεóς ser encarado como qualitativo.
4.3
Seria Θεός em João 1:1 qualitativo?
O
último de nossos questionamentos recai sobre a possibilidade de tomarmos theós
como qualitativo na terceira cláusula. Wallace afirma que “o mais provável
candidato para θεóς é o qualitativo” [57], e sustenta que “isto é verdade tanto
gramaticalmente (pois a maior proporção dos predicados nominativos pré-verbais
anártros caem nesta categoria) quanto teologicamente (tanto na teologia do
Quarto Evangelho quanto na do NT como um todo)” (1996, p.269) [58].
No que
diz respeito ao aspecto gramatical, é importante tratarmos aqui brevemente
sobre a relação entre sujeito e predicativo do sujeito. No português, esta
relação é facilmente distinguida pela ordem das palavras, ou seja, o sujeito
vem primeiro, seguido pelo verbo de ligação e o predicativo do sujeito, como na
frase “‘João é um homem’, ‘João’ é o sujeito, e ‘homem’ é o predicativo do
sujeito” (WALLACE apud MOUNCE, 2009, p. 37), ambos unidos pelo verbo de ligação
“é”.
No
grego, porém, a ordem das palavras é bastante flexível e, de acordo com Wallace
(apudMOUNCE, 2009, p. 37), “[...] é empregada visando ênfase mais do que uma
função gramatical rigorosa”, sendo utilizados outros meios para fazer a
distinção entre sujeito e predicativo do sujeito, como, por exemplo, a presença
de um artigo definido junto a um dos substantivos, evidenciando-o como o
sujeito.
Sendo
assim, estudando a disposição das palavras nas sentenças gregas entendemos que
“quando uma palavra é colocada no início da oração, é para enfatizá-la”,
portanto, “[...] quando um predicativo do sujeito é transportado para antes do
verbo, recebe ênfase em virtude da ordem da palavra” (WALLACE apud MOUNCE,
2009, p. 37), como acontece em nosso caso com a terceira cláusula de João 1:1.
É
interessante que, em nossas versões, este versículo é traduzido como “e o Verbo
[ou a Palavra] era Deus”. Não é assim, porém, em grego. A forma como o
encontramos é: “καì θεòς ἦν ὁ λóγος” (“e Deus era a o Verbo [ou a Palavra]”).
Visto que o “Verbo [ou a Palavra]” carrega consigo um artigo definido, logo
percebemos que se trata do sujeito e, em nossas traduções, seguindo os moldes
da relação “sujeito/predicativo do sujeito” em português, o arrastamos para o
início da frase: “e o Verbo [ou a Palavra] era Deus”.
Wallace
(apud MOUNCE, 2009, pp. 37, 38) declara que “duas perguntas, ambas com
relevância teológica, devem vir à mente: (1) por que θεóς foi transportado para
o início da oração? E (2) por que está sem artigo?” Respondendo a primeira
pergunta, Bruce diz que a intenção de João aqui é expressar “[...] que a
Palavra [ou Verbo] compartilhava a natureza e o ser de Deus” (1983, p. 31)
[59]. Isto concorda com o pensamento de Wallace (apud MOUNCE, 2009, p. 38), o
qual afirma que a posição enfática das palavras ressalta a essência ou
qualidade do sujeito. Tanto Wallace (1996, p. 269) quanto Bruce (1983, p. 31)
apontam para a tradução “O que Deus era, a Palavra era” como uma boa
interpretação para expressar a força dessa ordem de palavras.
A
posição de que theós em João 1.1c deva ser tomado como qualitativo tem
encontrado algumas críticas, na maioria das vezes baseadas numa má interpretação
da regra de Colwell. Embora Colwell tenha afirmado que um predicado nominativo,
sendo, a partir do contexto, provavelmente definido, quando precedendo um verbo
habitualmente aparecerá sem o artigo, muitos têm generalizado e entendido que
um predicado nominativo, simplesmente por anteceder o verbo, deve ser,
freqüentemente, tomado como definido. Wallace descreve um acontecimento que
lança bastante luz acerca deste mau entendimento:
Quarenta
anos depois do artigo de Colwell ter aparecido no JBL, o ensaio de Philip B.
Harner foi publicado no mesmo jornal. Harner apontou que “Colwell estava quase
inteiramente interessado na questão de se os substantivos predicados anártros
eram definidos ou indefinidos, e ele não discutiu em qualquer extensão o problema
de sua significação qualitativa.” Isto foi provavelmente devido ao fato de que
muitos gramáticos antigos não viam distinção entre substantivos qualitativos e
substantivos definidos (1996, p. 259).[60]
Precisamos
lembrar que “quando um substantivo é anártro, ele pode ter uma das três forças:
indefinido, qualitativo, ou definido” (WALLACE, 1996, p. 243) [61]. Ao deixar
de abordar o problema da significação qualitativa, o próprio Colwell, ao que
parece, acabou contribuindo para um posterior mau uso de sua regra. Digno de
nota, também, é o destaque de Wallace ao fato de Harner ter produzido “[...]
evidência de que predicados nominativos anártros pré-verbais são usualmente
qualitativos – não definidos nem indefinidos. Suas descobertas, em geral, foram
de que 80% das construções de Colwell envolviam substantivos qualitativos e
apenas 20% envolviam substantivos definidos” (1996, p. 259) [62].
Uma
comparação entre João 1:1c e João 1:14 também se apresenta como grande auxílio
para compreendermos o que se pretende expressar ao tomarmos theós como
qualitativo. Wallace (1996, p. 269) sustenta que ambas as passagens “[...]
enfatizam a natureza do verbo e não sua identidade. [...]θεóς era sua natureza
desde a eternidade (daí, εἰμί ser usado), enquanto σάρξ foi acrescentada na
encarnação (daí, γίνομαι ser usado).” [63] Assim, seguindo o que já dissemos
até aqui, atribuindo a theós um peso qualitativo asseveramos a essência do
Verbo (ele compartilha indistintamente dos mesmos atributos do Pai) sem
contestar de maneira alguma Sua deidade, e neste caso a tradução de Moffatt (de
que o Verbo é “divino”) seria aceitável apenas se o tomássemos como “[...] um
termo que pode ser aplicado tão somente à verdadeira deidade”[64], diferindo do
uso moderno que o aplica “[...] com referência aos anjos, [em inglês] aos
teólogos, e até mesmo a comida” (WALLACE, 1996, p. 269) [65].
Acerca
da segunda pergunta, ou seja, o porquê de θεóς estar sem artigo, nos parece
evidente a intenção autoral de nos impedir “[...] de identificar a pessoa da
Palavra (Jesus Cristo) com a pessoa de Deus (o Pai)” (WALLACE apud MOUNCE,
2009, p. 38).
Resumindo, nas Palavras de Wallace: “[...] a ordem das palavras
nos diz que Jesus Cristo tem todos os atributos divinos que o Pai possui; a
falta do artigo nos diz que Jesus Cristo não é o Pai. [...] Conforme disse
Martinho Lutero, a falta de um artigo vai contra o sabelianismo; a ordem das
palavras vai contra o arianismo” (apud MOUNCE, 2009, p. 38).
Uma
forma de vermos isto mais claramente nos é proposta por Wallace (apud MOUNCE,
2009, p. 38) através da comparação das diferentes construções gregas tais como
seguem:
καὶ ὁ
λόγος ἦν ὁ θεóς “e a Palavra era o Deus” (i.e, o Pai; sabelianismo)
καὶ ὁ
λόγος ἦν θεóς “e a Palavra era um deus” (arianismo)
καὶ
θεòς ἦν ὁ λόγος “e a Palavra era Deus (fé ortodoxa)
Assim,
podemos firmemente afirmar com Wallace: “A construção que o evangelista
escolheu para expressar esta idéia foi o modo mais conciso que ele poderia ter
usado para afirmar que a Palavra era Deus e era ainda distinta do Pai” (1996,
p. 269) [66]. “Jesus Cristo é Deus e possui todos os atributos que o Pai
possui. Não é, porém, a primeira pessoa da Trindade. Tudo isso é afirmado de
modo conciso em καὶ θεòς ἦνὁ λόγος” (WALLACE apud MOUNCE, 2009, p. 38).
No que
diz respeito à tradução, concordamos com Wallace que, embora creiamos que θεóς
na terceira cláusula seja qualitativo, pensamos que a mais simples e correta
tradução seja: “e o Verbo [ou a Palavra] era Deus”. “Pode ser melhor afirmar
claramente o ensino neotestamentário da deidade de Cristo e então explicar que
ele não é o Pai, ao invés de parecer ambíguo sobre sua deidade e explicar que
ele é Deus, mas não é o Pai” (1996, p. 269).[67]
5
CONCLUSÃO
A
conclusão a que chegamos é a de que, embora o conceito de Lógos fosse comum e
já bem definido no período em que João o empregou, o apóstolo o desenvolve de
modo inteiramente novo, atribuindo-o a uma existência divina que se encarna e
vive como um homem neste mundo. Sua doutrina do Lógos trabalha para revelar a
natureza excepcional de Jesus, o Deus preexistente que se faz homem e
apresenta-se numa cruz como sacrifício ao Pai no lugar de pecadores,
demonstrando assim o seu amor e garantindo-lhes salvação.
Nossa
exegese de João 1:1 esforçou-se para estabelecer o real sentido aplicado pelo
apóstolo ao chamar o Lógos de θεóς. Esta análise demonstrou-se consistente com
o restante do ensino de João, apoiando o conceito do, assim chamado, “quarto
evangelista” de que, tomando θεóς como qualitativo, o Lógos compartilha da
mesma essência do Pai, sendo, todavia, distinto da primeira Pessoa da Trindade
quanto a Sua hipóstase (pessoa). Assim, desde o prólogo de seu Evangelho, João
apresenta Jesus como Deus, o Filho, co-eterno e co-igual ao Pai.
Vale à
pena relembrar as palavras de Lewis:
Estou
tentando impedir que alguém repita a rematada tolice dita por muitos a seu
respeito: “estou disposto a aceitar Jesus como um grande mestre da moral, mas
não aceito a sua afirmação de ser Deus.” Essa é a única coisa que não devemos
dizer. Um homem que fosse somente um homem e dissesse as coisas que Jesus disse
não seria um grande mestre da moral. Seria um lunático – no mesmo grau de
alguém que pretendesse ser um ovo cozido – ou então o diabo em pessoa. Faça a
sua escolha. Ou esse homem era, e é, o Filho de Deus, ou não passa de um louco
ou coisa pior. Você pode querer calá-lo por ser um louco, pode cuspir nele e
matá-lo como a um demônio; ou pode prosternar-se a seus pés e chamá-lo de
Senhor e Deus. Mas que ninguém venha, com paternal condescendência, dizer que
ele não passava de um grande mestre humano. Ele não nos deixou esta opção, e
não quis deixá-la. (LEWIS, p. 69, 70)
Mais do que em qualquer outro lugar da Escritura, e, todavia, em
absoluto acordo com toda ela, na narrativa de João, tanto Jesus quanto o
apóstolo reivindicam, incontestavelmente, a doutrina do Deus/homem. Jesus “era
Deus” desde o “princípio” (Jo. 1:1), “se fez carne” (Jo. 1:14), foi
crucificado, ressuscitou e apareceu para Tomé como “Senhor” e “Deus” (Jo.
20:28).
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